Dia Mundial sem Carros: e se o problema não fosse apenas o carro?

O Dia Mundial sem Carros convida-nos, todos os anos, a repensar a forma como nos deslocamos. Menos carros nas ruas, menos emissões, menos congestionamento e cidades mais sustentáveis.
É uma ideia fácil de defender.
Mais difícil é responder a uma pergunta: será que Portugal está preparado para que as pessoas possam, realmente, deixar o carro em casa?
Em muitas zonas do país, sobretudo fora dos grandes centros urbanos, a resposta continua a ser pouco evidente. Há localidades onde os transportes públicos são escassos, os horários não respondem às necessidades de quem trabalha por turnos e as ligações entre diferentes municípios podem transformar uma deslocação de 30 minutos de carro numa viagem de várias horas.
E depois há o outro lado da questão: ter carro também está longe de ser barato.
Combustível, seguro, manutenção, inspeção, impostos, estacionamento... O automóvel representa uma despesa significativa no orçamento familiar. Ainda assim, para muitas pessoas, continua a ser indispensável para chegar ao trabalho, levar os filhos à escola, tratar de assuntos do dia a dia ou simplesmente viver numa região onde as alternativas são limitadas.
É aqui que o debate sobre mobilidade precisa de ir além do clássico "deixe o carro em casa".
Não é apenas uma questão de vontade
Quando se pede a alguém que troque o automóvel pelos transportes públicos, é importante perguntar primeiro: que alternativas existem?
É possível chegar ao trabalho a tempo?
Existe transporte ao início da manhã ou ao final da noite?
Há ligações entre zonas rurais e centros urbanos?
O preço do transporte é compatível com o orçamento mensal?
E, sobretudo, quanto tempo demora essa deslocação?
A sustentabilidade não pode depender apenas do esforço individual. Para que deixar o carro seja uma opção real, é necessário que existam alternativas reais.
Isso significa investir em transportes públicos mais frequentes, acessíveis e abrangentes, melhorar as ligações ferroviárias e rodoviárias e pensar a mobilidade para além dos grandes centros urbanos.
Porque não basta pedir às pessoas que deixem o carro em casa quando, em muitas regiões, não existem alternativas viáveis e quando o combustível, os seguros e a manutenção representam uma despesa cada vez maior.
E enquanto essas alternativas não existem?
Talvez o Dia Mundial sem Carros também possa servir para uma reflexão mais pragmática.
Nem sempre será possível deixar o carro completamente de lado. Mas talvez seja possível utilizá-lo de forma diferente.
Partilhar viagens quando possível.
Combinar deslocações.
Optar por transportes públicos sempre que sejam uma alternativa viável.
Caminhar ou utilizar bicicleta em trajetos curtos.
Planear melhor as deslocações.
E, sobretudo, evitar que cada pessoa precise de utilizar um automóvel individual para fazer aquilo que poderia ser assegurado por uma rede de mobilidade eficiente.
Porque a discussão não deveria ser "carro ou transportes públicos".
Deveria ser: "que sistema de mobilidade queremos ter?"
Um dia para questionar, não apenas para cumprir.
O Dia Mundial sem Carros é uma boa oportunidade para olhar para as nossas cidades e para os nossos hábitos. Mas também para reconhecer que as escolhas individuais são condicionadas pelo lugar onde vivemos, pelo nosso trabalho, pelos horários e pelas infraestruturas que temos disponíveis.
Se queremos menos carros nas estradas, precisamos de criar condições para que isso seja possível.
Porque dizer a alguém para deixar o carro em casa é fácil.
Criar uma realidade em que essa pessoa não precise dele é que é o verdadeiro desafio.